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O estudo e a utilização de vitaminas no diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças neurológicas mudou radicalmente nos últimos anos. Muitas são as substâncias estudadas, mas uma forma de encontrar a vitamina B fartamente encontrada em vegetais de folhas verdes, denominada ácido fólico (AF), de fácil acesso e consumo para muitas pessoas, tem despertado amplo interesse científico.
Entretanto, nem sempre foi assim: na década de 60 diversos autores céticos alertavam para o risco da administração de AF e subsequente distúrbios no Sistema Nervoso (SN), principalmente no desencadeamento ou agravamento das manifestações neurológicas devido deficiência de outra vitamina, a B12.
Posteriormente, os benefícios da administração de ácido fólico no tratamento das manifestações neurológicas decorrentes de anemia megaloblástica, por deficiência do próprio ácido fólico, foram óbvia e amplamente reconhecidos.
Mais surpreendente, na década de 90, o uso de AF durante a gestação foi o impacto definitivo para a prevenção de defeitos no tubo neural que produzem doenças neurológicas no feto. Assim, o ácido fólico passou de vilão a herói em apenas algumas décadas e hoje tem sido pesquisado em diferentes condições.
Recentemente, Kim e colegas coreanos associados com Stewart da Universidade de Londres (Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry 2008;79:864-868) estudaram a concentração sérica (sanguínea) de ácido fólico, vitamina B12 e do aminoácido homocisteína em 625 pacientes idosos sadios em relação ao surgimento de demência.
Destes pacientes, 518 foram avaliados continuamente por um período mínimo de 2 e 4 anos, com exames médicos e laboratoriais. Seu principal resultado foi: a diminuição da concentração sérica de ácido fólico no início do estudo (3,5 % dos pacientes) sugeria um potencial surgimento de demência, relação tanto mais forte quanto mais reduzidos os valores de ácido fólico e aumentando o risco em até 3,5 vezes quando comparados àqueles de concentração normal.
O que este estudo quer dizer na prática? A baixa concentração sanguínea de ácido fóloico pode ser uma das complexas etapas diretamente envolvidas no surgimento de alterações cerebrais que contribuem para o início da demência - uma relação causal (?!), ou então ser mais um achado laboratorial decorrente de outros processos, por exemplo, mudanças na dieta secundárias à doença.
Além disso, esta pesquisa reforça a associação entre dieta e sistema nervoso em idosos. Enquanto novas pesquisas são necessárias , o governo britânico, que não é nada bobo, pensa adicionar ácido fólico em pães e farinhas.
Dr. Renato Bestetti / Neurologista
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