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Um trabalho colossal: O Estudo Rotterdam

Por Dr. Renato B. Bestetti

Planejado desde o início da década de 80 no século passado , o Estudo Rotterdam (ER) procura demonstrar o potencial da prevenção e adiamento de determinadas doenças, entre outras, as neurológicas degenerativas da terceira idade.

Além disso , mostra que o envelhecimento, em si, pode não necessariamente ser a fase final, mas apenas um desfecho comum dos fatores a que somos expostos no decorrer de toda a vida.

Prof. Hoffman e seus colaboradores, entre eles  Monique Breteler, que continuou o trabalho do seu mestre na liderança das investigações neurológicas a partir de 1996, Paulus de Jong na oftalmologia e Cornelia van Duijn na genética ( The Lancet Neurology, volume 5, issue 6, June 2006), resumiram o que aprenderam com o resultado de seus esforços e de outras dezenas de pesquisadores holandeses, em mais de 500 publicações científicas até 2005 e financiados por mais de 50 instituições. Eles simplesmente afirmam que a época do niilismo ou descrença completa na prevenção, acabou.

O projeto iniciou quando os autores observaram, através de estudos estatísticos de algumas populações, um nítido aumento no número de idosos desde 1980. Para se ter uma idéia disso, Oeppen e Vaupel (Science 2002, 296:1029-1031) calcularam um acréscimo na expectativa de vida, desde o nascimento, de aproximadamente 0,23 anos a cada ano vivido.

Por outro lado, poderíamos acrescentar 1 em cada 4 anos de vida ... ou a cada semana transcorrida acrescentaríamos, aproximadamente, um final de semana! Na terceira idade, este acúmulo seria impressionante, ampliando considerável e surpreendentemente nossa existência. Vida sem problemas não existe, portanto o aumento em sua duração exige um olhar atento nas doenças que acompanhariam esta prorrogação.

Para ser mais claro, haverá um aumento no número de idosos doentes, porque diversas moléstias tendem a se agrupar no final da vida. Tendência esta que não resulta simplesmente de sua prorrogação: é a consequência, segundo estes autores, da exposição a fatores prejudiciais ao longo de toda uma vida ou em pontos decisivos dela.


Fundamental portanto, é descobrir os fatores que contribuem para estas condições, tanto para a prorrogação da vida, quanto para o surgimento destas doenças. Depois, estabelecer um programa para aperfeiçoar uma e combater outra preventivamente, ao contrário de esperar a doença acontecer e procurar soluções depois.

Isto não significa, obviamente, uma tentativa insana de extinguir as doenças neurológicas da terceira idade, mas, inteligentemente, oferecer uma nova abordagem para atacá-las. Assim nascia o Estudo Rotterdam (ER), uma usina de trabalhos científicos formidáveis para repensar dogmas neurológicos e reconstruir a neurologia preventiva.

A partir de agora, o ER também inicia o blog que pretendemos desenvolver na próxima semana, com a intenção de disseminar um esclarecimento baseado em estudos científicos respeitáveis e debater as dúvidas inerentes ao pensar, com toda liberdade e completa responsabilidade.

Talvez Krapelin estivesse certo: o ponto de partida são as alterações circulatórias? O envolvimento do sistema circulatório nas síndromes demenciais é uma idéia antiga, no mínimo, ocupando o pensamento dos cientistas há mais de 1 século. Emil Kraepelin, colega e co-autor de alguns trabalhos com Alois Alzheimer, acreditava que a maioria dos casos era devido à arteriosclerose.

Para os autores do ER, os fatores vasculares estão fortemente associados com lesões na substância branca cerebral, cardiopatia e funções cognitivas, e também aterosclerose em diferentes locais (Lancet (1993) 341: 1232-1237; British Medical Journal  (1994) 308: 1604-1608; Lancet (1997) 349: 151-154 ). 

Estudos longitudinais, envolvendo o contínuo seguimento de pacientes, mostram que infartos cerebrais silenciosos (sem percepção do paciente nem observação de terceiros) e não-silenciosos ( infartos cerebrais francamente percebidos e visíveis),  antecipam síndromes demenciais. Além disso, um infarto cerebral é frequentemente o precursor de uma síndrome demencial (N Engl J Med (2003) 348 :1215-1222).

Enquanto o tabagismo pode ser uma fator de risco para síndromes demenciais, o etilismo moderado parece ter uma relação inversa. Isso provavelmente deixaria Kraepelin enfurecido , já que abstêmio convicto, criou problemas com toda a Bavária, inclusive seu rei. Imaginem então com os pacientes...

O que impressiona bastante é que os fatores de risco para doenças cardiovasculares  também são fatores de risco para doença de Alzheimer e outras demências, conforme os resultados do pesquisadores do ER.

É óbvio que isto não explica tudo, existindo vários fatores envolvidos, mas a idéia é reforçar os aspectos que levam a um estilo de vida seguro, confortável e até prazeroso quando possível, sem colocar em risco a saúde das pessoas. De todo modo, já estamos prevenindo problemas circulatórios sistêmicos e se, além disso, esta prevenção contribuir para amenizar o peso das doenças neurológicas da terceira idade, ótimo.

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